PERFORMANCES DE NÁDIA DUVALL

Me afastei um pouco da produção de material para a minha coluna, para me concentrar em outras atividades na área administrativa do Arte351 e no meu trabalho artístico. Mas, mesmo sem ter concluído as atividades fora desta coluna, voltarei a ela sempre que me aparecer algo interessante e calhe de eu conseguir algum tempo, mesmo que pequeno, para publicar. Nesse sentido, convido a todos para conhecer o trabalho da artista Nádia Duvall. Artista visual e performática, Nádia Duval falou um pouco sobre seu trabalho nas performances BLACK DRESS e O PROCESSO. Veja os vídeos do trabalho da artista e aprecie…cumprimentos!

BLACK DRESS (2012)

Sobre a performance:

Black Dress foi a primeira performance (filmada) no qual todo o meu corpo entrou dentro da pele negra. Esta performance trata essencialmente um tema muito comum e simultaneamente muito discreto que é a Depressão.

A ideia aqui de “vestido” é essencialmente a tendência de nos vestirmos de dor, solidão e progressivamente ficamos embrenhados numa capa viscosa que torna difícil sairmos. Este vestido negro (de luto permanente por nós próprios), transforma-nos e, numa bizarra metamorfose bastante insectóide, tornar-nos num outro eu.

Este vestido negro é como uma dança silenciosa num templo secreto… é dor e amor, terror e beleza. Só nós próprios temos a chave. No fim, é todo um processo de Ecdysis (termo para mudança de pele nas cobras e outros insectos) da mente para o corpo.

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O PROCESSO (2016)

Sobre a performance:

Quando pensei no titulo para esta performance pensei exatamente no processo que é toda a minha obra. Criar peles de tinta nas piscinas a que chamo de ÚTERO é viver constantemente num parto contínuo. Daí o titulo (bastante Kafkaniano) ser pensado nesse registo.

Toda esta performance, realizada na galeria La Juan, em Madrid, foi essencialmente improvisada. É composta por dois tempos, um dentro da galeria e outro nas ruas de Madrid. Na verdade nem eu fazia ideia que iria sair da galeria. E, o momento em que saí para a rua e enfrentei o “mundo real”, posso dizer que foi o momento em que achei que estava certo, verdadeiro e real.

Como base da performance sabia que ia recriar um parto doloroso, no qual em uma envolvente e estranha água leitosa, sairia dentro de mim um bebe. Contudo não dei a oportunidade a ninguém de ver essa criatura pois ela fica coberta com aquela membrana pegajosa, negra como crude.

Balanço-a como se faz a um bebé e, numa metamorfose, a pureza é transformada em algo grotesco, completamente contaminada.

A máscara de gás que uso (dos anos 60) é para tornar o meu rosto indecifrável (quase alienesco), sou uma espécie de Grande-Mãe, poderosa máquina que ora acaricia a criatura ora a transporta pelo mundo.

Sendo toda a minha obra auto-biográfica, esta performance identifica-se diretamente com uma parte da minha história de vida. Também sou produto de guerras religiosas e políticas. Assim sendo, toda a minha identidade e consequentemente toda a minha Arte é o resultado das perturbações que me foram infligidas.

Quando começou a chegar imagens de crianças vítimas de guerra, manchadas e contaminadas para o resto da sua vida, achei que agora, mais do que nunca, eu deveria fazer alguma coisa a respeito destes temas que também me contaminaram e me transformaram no que sou hoje.

Coluna – Renato Rodyner
Renato Rodyner, brasileiro, Porto Alegre, RS, Brasil, 1962. Artista plástico, Jornalista, Curador e Crítico de Arte, proprietário da Rodyner Gallery e Editor Geral da “Arte351 Magazine”.

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