Festival de Almada 2020 em julho

festival de almada 2020

O maior festival de teatro de Portugal com mais sessões de espectáculos para a sua 37.ª edição

Na sexta-feira passada (19), a programação do Festival de Almada 2020 foi apresentada na Casa da Cerca pelo Director artístico do Festival de Almada, Rodrigo Francisco e pela Presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros.

Devido à pandemia do COVID-19, a edição do Festival de Almada 2020 será diferente. A arte e a cultura sempre presentes, consumidas em maior quantidade numérica e temporal, a destacar ainda mais a sua relevância e importância para despertar o pensar, em tempos de confinamento. “Cumprindo as regras e recomendações para garantir a segurança de todos, mantem-se inalterada a vontade inicial de apoiar e divulgar a nossa cultura, os nossos artistas, promover o diálogo, a reflexão, honrar os sentimentos.” disse Inês de Medeiros. Sem espectáculos ao ar livre, todas as sete salas que os acolherão, em Almada e Lisboa, terão lugares marcados, bem como a obrigatoriedade do uso de máscara pelos espectadores. Segundo Rodrigo Francisco “As condições em que trabalhámos nos últimos meses são conhecidas de todos, e as regras de segurança sanitária levaram-nos a ter de abdicar daquilo que porventura mais nos caracteriza: não existirá o Palco Grande, nem espectáculos ao ar livre, nem haverá “festa estival”. Mas haverá Festival.”

Serão 17 espetáculos apresentados em 90 sessões divididas em cinco palcos em Almada (Fórum Municipal Romeu Correia, Incrível Almadense, Academia Almadense, Teatro Municipal Joaquim Benite e Teatro-Estúdio António Assunção) e um em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB).

Programada para começar na sexta-feira, dia 3 de julho, e encerrar no domingo, dia 26 de julho, o 37.º Festival de Almada conta com uma edição “quase exclusivamente portuguesa” e com três estreias nacionais.

Durante o período do Festival estará patente, no foyer do Teatro Municipal Joaquim Benite, a exposição “O sonho de J.” e “O actor que queria ser sinaleiro”, de José Manuel Castanheira, para o actor e encenador Rui Mendes – a personalidade homenageada nesta edição do Festival de Almada 2020.

festival de almada 2020
Homenageado Rui Mendes. Foto: divulgação

Para o curso de formação, destinado à estudantes e à profissionais de teatro, Madalena Victorino será a responsável com “O sentido dos Mestres” durante cinco dias do Festival de Almada 2020.

Como todos os anos, os debates entre os criadores e o público também foram mantidos com Colóquios da Esplanada. Serão 14 conversas na Esplanada da Escola D. António da Costa com os artistas participantes do Festival, realizadas em parceria com a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.

O cartaz para o Festival de Almada 2020 foi concebido pelo artista plástico Pedro Proença.

Estreias Nacionais do 37.º Festival de Almada

Bruscamente no Verão Passado‘ é o primeiro espectáculo que estreia (3), no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. A peça trata sobre a intolerância à homossexualidade na sociedade dos anos de 1950 e é encenada pelo diretor do Teatro Experimental de Cascais, Carlos Avilez. A peça é considerada uma das mais enigmáticas do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams e na época em que estreou, em 1958, a peça foi apreciada pela sua estrutura dramática aparentemente simples, mas ao mesmo tempo detestada pelo seu conteúdo “perturbador” de homossexualidade, violação, loucura e canibalismo. Poucos souberam reconhecer que se trata de um dos “romances Góticos mais férteis e rigorosamente compostos por Williams”, nas palavras de Vincent Canby, critico do New York Times; e que contém algumas das cenas mais poéticas e evocativas da obra de Williams.

mulher abraça outra e homem está atrás olhando
Bruscamente no Verão Passado. Foto: Ricardo Rodrigues (divulgação)

A Comuna – Teatro de Pesquisa estreia também uma peça no Festival: As artimanhas de Scapin, de Molière, com encenação de João Mota e tradução poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. O autor francês prestou neste texto uma homenagem à commedia dell’arte: Scapin inscreve-se na vasta galeria de criados astuciosos da literatura europeia. O papel de Scapin é um dos mais cobiçados da dramaturgia francesa, tendo já sido interpretado por actores como Jean-Louis Barrault. Fortemente marcada pelo espírito e feição popular e expressionista da commedia dell’arte, tem por base o enredo de Formião, uma peça da Antiguidade clássica da autoria do poeta Terêncio (representada pela primeira em 161 a.C). Inicialmente criticada pela sua estética, julgada demasiado popular e até mesmo ofensiva, esta comédia viria a granjear enorme popularidade depois da morte do seu autor, tornando-se uma das peças mais representadas do repertório teatral francês.

A terceira estreia do Festival de Almada é da Companhia de Teatro do Algarve: Instruções para abolir o Natal, do canadiano Michael Mackenzie, com encenação de Isabel Pereira dos Santos. Estreada em Montreal em 2011, a peça aborda os efeitos da crise financeira de 2008 na sequência da falência do banco norte-americano Lehman Brothers, tendo sido posteriormente reescrita pelo autor para incluir os efeitos do Brexit na economia europeia.

festival de almada - duas pessoas com códigos em frente
Instruções para abolir o Natal. Foto: divulgação

Espectáculos internacionais do Festival de Almada 2020

São três os espectáculos internacionais: “Future Lovers”, do projecto de teatro de acção espanhol La Tristura, de Celso Giménez; “Rebota rebota y en tu cara explota”, da Compañia Agnès Mateus y Quim Tarrida; e “Johan Padan a la descoverta de le Americhe”, da italiana Compagnia Teatrale For Rame, de Dario Fo e Franca Rame.

De Espanha chega-nos também Future Lovers, pela companhia La Tristura, que traça o perfil de um grupo de rapazes e raparigas nascidos com o século XXI, para quem “Deus não existe”, e a quem é mais fácil comunicar através de telemóveis do que de viva voz. A dada altura alguém diz: “Somos novos, giros e estamos dispostos a tudo: vamos fazer a revolução!”. E ao amor? Que espaço lhe reservam nas suas vidas? Para o diário El Mundo a companhia madrilena La Tristura é “um dos grupos espanhóis com maior entendimento daquilo que é o teatro”.

miúdo olha a tela do telemóvel no escuro
Future Lovers. Foto: divulgação

Rebota, rebota y en tu cara explota, uma performance da dupla catalã Agnès Mateus e Quim Tarrida, é um libelo contra o feminicídio. Em Espanha, quando o espectáculo estreou em 2017, tinham sido assassinadas em média duas mulheres por semana nos últimos dez anos. Os criadores fazem notar que “se tivessem sido jogadores de futebol, então talvez alguém tivesse feito alguma coisa nesse espaço de tempo”. Vencedor do Prémio Sebastià Gasch 2018, o espectáculo denuncia a forma como o imaginário Walt Disney e a própria linguagem têm continuado a relegar as mulheres para uma condição subalterna.

mulher caída no chão. festival de almada 2020
Rebota Rebota y en tu cara explota. Foto: divulgação

Mario Pirovano, discípulo do Mestre italiano Dario Fo (Prémio Nobel da Literatura 1997), apresenta em Almada “Johan Padan a la descoverta de le Americhe”: uma anti-epopeia cómica narrada a partir do ponto de vista de um fugitivo à Inquisição italiana, e que a acaba por ver-se a bordo das naus de Cristóvão Colombo. O texto estreou-se na Expo ’92 de Sevilha com assinalável escândalo: em vez de celebrar os 500 anos da descoberta do continente americano pelos europeus, o texto de Dario Fo e Franca Rame denuncia a matança e a rapina praticadas pelos conquistadores assim que desembarcaram no Novo Mundo.

Johan Padan a la descoverta de le Americhe. Foto: Fábio Pirazzi (divulgação)

Teatros nacionais

O Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro Nacional São João coincidem no Festival de Almada 2020 – 37.ª edição do Festival, com duas criações dos seus directores artísticos.

Tiago Rodrigues interpreta By Heart, o monólogo em que ensina um soneto de Shakespeare a dez espectadores que se juntam a si em cena; e Nuno Cardoso apresenta-nos a sua mais recente encenação: Castro, de António Ferreira, que fez três récitas em Março aquando da estreia e que não voltou a subir à cena.

By Heart estreou em Lisboa em 2013 e desde então Tiago Rodrigues tem realizado uma digressão que o levou a mais de noventa cidades no Mundo. Ensinar um poema em cena a dez espectadores é o mote para uma viagem à vivência poética, durante a qual se alude à “importância da transmissão, do invisível contrabando de palavras e ideias que apenas guardar um texto na memória pode oferecer”. “Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”, são palavras de George Steiner. O diário francês Le Figaro considerou By Heart “tão profundo, tão ambicioso e tão magnífico que saímos dele completamente comovidos”.

By heart. Foto: Magda Bizarro (divulgação)

“Cativo é, quem de si se vence”: eis o mote que o Teatro Nacional São João escolhe para anunciar a Castro que Nuno Cardoso encena. A tragédia de António Ferreira é comumente considerada a mais bela e perfeita peça de teatro alguma vez escrita em língua portuguesa. Na sua leitura, Cardoso transporta-nos para uma tragédia amorosa “nos tempos do Tinder”, situando as personagens históricas num duplex anódino cujas divisões estão continuamente à vista do espectador.

Castro. Foto: Tuna TNSJ (divulgação)

A nova dramaturgia portuguesa

Tiago Correia (1987) é autor de quase uma dezena de peças, tendo vencido por duas vezes o Grande Prémio de Teatro Português da SPA, com os textos Pela água (2016) e Alma (2018). Turismo, uma estreia de A Turma no início deste ano, aborda o problema da gentrificação, bem como os efeitos da pressão turística a que têm estado sujeitas as principais cidades portuguesas. Neste caso específico, fala-se do Porto.

Turismo. Foto: Jose Caldeira (divulgação)

Raquel Castro (1981) escreveu Turma de 95 a partir de uma ideia original da companhia inglesa Third Angel (Class of 76). Estreado no final do ano passado, o espectáculo da Companhia Barba Azul está nomeado para o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores nas categorias de Melhor Texto e Melhor Espectáculo de Teatro. Partindo da sua experiência enquanto aluna do colégio Salesianos de Lisboa, Raquel Castro traça o perfil de uma geração e vai à procura dos destinos dos seus antigos colegas da turma de 95. O que é feito desses miúdos?

Turma de 95. Foto: Bruno Simão (divulgação)

André Murraças (1976) é um dramaturgo e performer ligado ao activismo LGBT: é autor do Queerquivo e da webserie Barba rija. As suas peças estão editadas na Cotovia, tendo vencido por três vezes o prémio Teatro da Década. Em O criado aborda uma novela de Robin Maugham (The servant), bem como a adaptação cinematográfica que Joseph Losey e Harold Pinter realizaram desse texto, centrando-se na figura de Dirk Bogarde: o actor que interpreta a misteriosa personagem que dá o nome ao filme, e que foi o primeiro actor do cinema inglês a dizer “I Love you” a outro homem. Murraças utiliza o vídeo e a manipulação de objectos para cruzar três universos — a novela, o filme, a vida de Bogarde.

O criado. Foto: Alipio Padilha (divulgação)

Outras criações portuguesas

A Companhia de Teatro de Almada apresenta dois espectáculos no Festival: Mártir, de Marius von Mayenburg, encenação de Rodrigo Francisco, e Viagem de Inverno, de Elfried Jeli-nek, encenação de Nuno Carinhas.

Pela sua interpretação em Mártir, Ana Cris recebeu o prémio da SPA para Melhor Actriz em 2018. Vicente Wallenstein foi nomeado pela mesma entidade para o prémio de Melhor Actor. A revista Time out considerou Mártir um dos dez melhores espectáculos do ano. Nesta peça conta-se a história de Benjamim, um adolescente que certo dia se recusa a frequentar as aulas de natação porque as suas colegas usam biquíni e passa a citar o Antigo testamento para denunciar a suposta degradação moral vigente.

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Mártir. Foto: divulgação

Para a escrita de Viagem de Inverno, Elfriede Jelinek revisitou o ciclo homónimo de Schubert sobre poemas de Wilhelm Müller. Em Viagem de Inverno a escritora aborda alguns episódios da vida austríaca, como o resgate do banco Hypo Alpe ou o rapto de Natascha Kampusch (que viveu oito anos em cativeiro), e afronta o Mundo contemporâneo: a permeabilidade entre a finança e a política e a banalização das relações afectivas, por exemplo. O espectáculo de Nuno Carinhas é protagonizado por três actrizes de três gerações diferentes: Teresa Gafeira, Ana Crise Flávia Gusmão.

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Viagem de inverno. Foto: divulgação

É a segunda vez que António Pires dirige no Festival de Almada uma peça de Gertrude Stein. Desta vez o Teatro do Bairro traz-nos O Mundo é redondo, uma das poucas histórias que Stein escreveu para crianças, que Luísa Costa Gomes traduziu e que constitui, segundo a escritora portuguesa, “uma excelente introdução à obra literária de Stein”. O espectáculo venceu o Prémio Autores 2019 para Melhor Peça de Teatro.

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O mundo é redondo. Foto: Maria Antunes

A criada Zerlina, a narrativa do austríaco Hermann Broch, com cenografia de Pedro Cabrita Reis, constituiu a “discreta, subtil, e eficaz estreia na encenação de João Botelho” (in Time out). O realizador escreveu que “não se pode fazer bom teatro sobre alguma coisa: só se pode fazer bom teatro com algumas belas coisas”. E — para além do belíssimo texto, da cenografia discreta, e da luminosidade com sentido dramatúrgico — João Botelho aponta “a comunhão com a maravilhosa Luísa Cruz” como a chave do sucesso deste projecto. A interpretação da actriz neste espectáculo valeu-lhe um Globo de Ouro, e Luísa Cruz dedicou o prémio “àqueles que não têm voz: homens e mulheres”.

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A criada Zerlina. Foto: divulgação

Bohumil Hrabal afirmou uma vez ter vindo ao Mundo apenas para escrever Uma solidão demasiado ruidosa — e o actor António Simão, dos Artistas Unidos, parece não conseguir desligar-se do monólogo que extraiu do texto do autor checo. Simão estreou esta peça em 1997 e tem vindo a representá-la, numa digressão de mais de vinte anos. Hrabal baseou-se na sua própria experiência enquanto ‘carrasco livreiro’ construindo uma parábola sobre a censura que os regimes totalitários do século XX exerceram na República Checa. Uma solidão demasiado ruidosa é também uma declaração de amor à Literatura: como exaltação e como salvação.

Uma solidão demasiado ruidosa. Foto: Jorge Gonçalves (divulgação)

Nas suas Entrevistas com Salazar, António Ferro escreveu que sugerira ao ditador português que: “O povo gosta que procurem diverti-lo e acarinhá-lo”. Ao que Salazar terá respondido: “Tem toda a razão; convenceremos assim o povo de que pensamos nele”. A grande emissão do mundo português, pelo Teatrão, aborda o papel que a Emissora Nacional teve na difusão da ideologia do Estado Novo. Ao debruçar-se sobre este período, o grupo de Coimbra procura confrontar-se com o presente, reflectindo sobre as novas vagas populistas e a influência dos meios de comunicação de massa na propagação de ideias que apontam a ditadura como a solução inevitável para os males sociais.

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A grande emissão do mundo português. Foto: Carlos Gomes (divulgação)

Assinaturas para o 37.º Festival de Almada

Para acessar todos os espectáculos em Almada, numa das sessões programadas, é disponibilizado um passe de assinatura do Festival de Almada 2020.

Este ano as assinaturas têm uma redução substancial no preço. Em vez dos 75€ do ano passado, a assinatura terá um custo de 50€.

No Centro Cultural de Belém o acesso dos assinantes está condicionado à lotação da sala. As Assinaturas encontram-se à venda no Teatro Municipal Joaquim Benite, nas lojas FNAC e em www.ctalmada.pt.

Assinatura Geral 50€

Assinatura para os membros do Clube de Amigos do TMJB 40€

Programa Completo confira em https://festival.ctalmada.pt/