“Regular Animals”: Beeple transforma ícones da tecnologia em criaturas desconcertantes — e revela a imagem que construímos de nós mesmos
Na Art Basel Miami Beach deste ano, poucas obras chamaram tanta atenção quanto “Regular Animals”, de Beeple. Em um ambiente controlado, quase clínico, cães robóticos circulam com movimentos inquietantemente naturais, cada um usando máscaras hiper-realistas de figuras como Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Andy Warhol. O resultado é cômico, perturbador e imediatamente hipnotizante.
A obra parte da sátira, mas mira em algo mais profundo: nossa relação com o poder tecnológico. Equipados com câmeras, os robôs registram o público enquanto se deslocam, transformando rostos e gestos em matéria digital. O momento mais simbólico vem quando “defecam” impressões e outputs gerados por inteligência artificial, uma espécie de devolução distorcida daquilo que acabaram de capturar. Beeple parece apontar para o ciclo incessante de produção de imagens que define a cultura contemporânea, uma máquina que coleta, interpreta e regurgita tudo ao redor.

A instalação provoca risos nervosos, mas também desconforto. O espectador percebe que está sendo observado, processado e transformado em dado, e essa percepção cria uma inquietação que ecoa além do espaço físico da obra. Ao reduzir bilionários e ícones da arte a cães robóticos vigilantes, Beeple inverte hierarquias e expõe o absurdo do culto à tecnologia, ao mesmo tempo em que sugere que somos todos cúmplices dessa dinâmica.
O que torna “Regular Animals” tão eficaz é o equilíbrio entre humor absurdo e crítica social direta. A estética grotesca funciona como uma lente ampliada para um tema familiar: a crescente entrega de nossa identidade a mecanismos que filtram e devolvem ao mundo versões simplificadas de nós mesmos. Beeple não oferece respostas; apenas nos coloca diante de uma cena tão ridícula quanto reveladora.

No fim, é difícil decidir quem é mais “regular”, as máquinas programadas para imitar a vida, ou nós, acomodados à ideia de que elas façam isso em nosso lugar.

