{"id":662,"date":"2016-05-22T08:00:04","date_gmt":"2016-05-22T08:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/arte351.pt\/art\/?p=662"},"modified":"2016-06-04T12:45:31","modified_gmt":"2016-06-04T12:45:31","slug":"o-selvagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arte351.pt\/art\/2016\/05\/22\/o-selvagem\/","title":{"rendered":"O SELVAGEM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Fuhro iniciou sua carreira art\u00edstica na juventude como pintor, primeiro como um cezanesco e depois um matissiano. Quando passou a exercitar a gravura, Munch foi a primeira descoberta, seguido de Kirchner e Dan\u00fabio Gon\u00e7alves seu mestre em litografia. Mas sua juventude foi povoada pelos personagens cinematogr\u00e1ficos da \u00e9poca, o ator Marlon Brando \u00e0 frente com o filme \u201cO selvagem\u201d; isso lhe foi determinante: identificando-se, abra\u00e7ara a causa rebelde. Entre suas prefer\u00eancias e influ\u00eancias, contam muito as hist\u00f3rias em quadrinhos assinadas por Will Eisner com \u201cThe Spirit\u201d e Alex Raymond com \u201cFlash Gordon\u201d. Muitos pensam que foi Lee Falk com \u201cO Fantasma\u201d, n\u00e3o. Tamb\u00e9m contribui para sua futura iconografia pessoal os \u201ccatecismos\u201d proibidos de Carlos Z\u00e9firo, a del\u00edcia er\u00f3tica da d\u00e9cada de 50.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-665 size-full\" src=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/unnamed-1.jpg\" width=\"400\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/unnamed-1.jpg 400w, https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/unnamed-1-300x223.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leitor voraz desde sempre &#8211; todos os livros de sua biblioteca, ainda conservada &#8211; foram lidos!!! Nascido em Rio Grande, em 1938, filho de pai jornalista e literato e m\u00e3e de prendas dom\u00e9sticas com pendores artesanais, prov\u00e9m desse nascedouro natal sua vis\u00e3o dos ingleses golfistas e jogadores de futebol, personagens que perpassam toda a sua obra. Parte de sua inf\u00e2ncia e primeiros anos da juventude transcorreu entre as cidades de Porto Alegre, Niter\u00f3i e Rio de Janeiro. J\u00e1 trilhando o caminho art\u00edstico, na d\u00e9cada de 1950, residindo em S\u00e3o Paulo, foi assistente do fot\u00f3grafo Otto Stupakoff; data desse per\u00edodo o encantamento com as primeiras bienais \u2013 com a vis\u00e3o de \u201cGuernica\u201d e a paix\u00e3o por Picasso -, o conv\u00edvio com L\u00edvio Abramo, Maria Bonomi e Marcelo Grassmann, artistas de sua admira\u00e7\u00e3o. Ao tempo que receber premia\u00e7\u00f5es em sal\u00f5es era considerado importante, Fuhro papou os mais importantes em \u00e2mbito nacional, seja em Curitiba, S\u00e3o Paulo, Rio, Salvador, Belo Horizonte, al\u00e9m de participa\u00e7\u00f5es na representa\u00e7\u00e3o nacional em algumas edi\u00e7\u00f5es da Bienal Internacional de S\u00e3o Paulo. Seus trabalhos constam de acervos importantes como a Universidade de Stanford, Calif\u00f3rnia, Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, Funda\u00e7\u00e3o Vera Chaves Barcellos, Cole\u00e7\u00e3o APLUB, Pinacoteca Aldo Locatelli, dentre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Integrou, como artista convidado, exposi\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais como Cr\u00e9ativit\u00e9 dans l&#8217;Art Br\u00e9silien Contemporain, Mus\u00e9es Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelles, sob a curadoria de Jacob Klintowitz. Sua obra foi amplamente analisada pela cr\u00edtica profissional do pa\u00eds. Dono de extensa bibliografia \u00e9 verbete com reprodu\u00e7\u00e3o no \u201cDicion\u00e1rio das artes pl\u00e1sticas no Brasil\u201d e \u201cBrasil arte 50 anos depois\u201d, ambos de Roberto Pontual; \u201cDicion\u00e1rio de pintores brasileiros\u201d, de Walmir Ayala; \u201cHist\u00f3ria da arte brasileira\u201d, de Pietro Maria Bardi, e \u201cHist\u00f3ria geral da arte no Brasil\u201d de Walter Zanini.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos livros \u201cMestres do desenho brasileiro\u201d e \u201cArtistas gravadores brasileiros\u201d, ambos de Jacob Klintowitz, com diversas ilustra\u00e7\u00f5es e em \u201cA cria\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica em quest\u00e3o\u201d, Walmir Ayala registrou-o com extenso depoimento. Ap\u00f3s circular pela Europa, atualmente sua obra circula em mostra itinerante pela Am\u00e9rica Latina, em coletiva de gravadores organizada para o Itamaraty por Luiz Dolino. Esta exposi\u00e7\u00e3o comemora, de certa forma, seus 70 anos. Na vida foi seu pr\u00f3prio personagem com um humor \u00fanico, refinado e debochado, para situar, digamos assim: entre a cacha\u00e7a e o champagne. Orgulhosamente autodidata anunciava-se como \u201cestupidamente individual\u201d&#8230; pura mentira, uma met\u00e1fora das boas, ali\u00e1s, met\u00e1fora era o forte do artista; tanto e a tal ponto que, para quem n\u00e3o estivesse habituado, parecia expressar-se atrav\u00e9s de um dialeto. Inventava palavras sensacionais, uma delas, merece ganhar as ruas: grinfas, apelido dado a um preciso tipo de mo\u00e7as&#8230; n\u00e3o sei se me fa\u00e7o entender&#8230;muitas delas presentes nessa exposi\u00e7\u00e3o como modelos em saunas&#8230; mas n\u00e3o vejamos nisso nenhuma forma de preconceito, era puro carinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras como fix-brill, referia-se a sal\u00e1rio, perfeitex-blue significava bem acabado, perfeito. Em que pese a identifica\u00e7\u00e3o de seus trabalhos ter se tornado algo de f\u00e1cil reconhecimento, por causa das figuras mascaradas, a figura feminina \u00e9 mat\u00e9ria central em sua obra. Seja a mulher idealizada ou utilizada e vista criticamente como objeto, an\u00fancio de propaganda, signo de consumo. E no entanto, Fuhro foi publicit\u00e1rio, sua profiss\u00e3o por excel\u00eancia, mas n\u00e3o foi artista publicit\u00e1rio e nesse particular cabe uma observa\u00e7\u00e3o interessante: foi o primeiro empregado a receber o t\u00edtulo de \u201cPublicit\u00e1rio do Ano\u201d, um t\u00edtulo patronal; sua \u00e1rea era o atendimento a clientes. Inveterado amante do jazz, apreciava Bix Beiderbeck, Coltrane, Miles Davis, Jelly Roll Morton, era regado a m\u00fasica, sendo essa a raz\u00e3o para que muitos de seus trabalhos sejam baseados em instrumentos musicais no todo ou em parte de suas composi\u00e7\u00f5es. Essa admira\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m estendia-se ao cinema e \u00e0 literatura americana, nesta, atrav\u00e9s dos relatos de Hemingway, Fitzgerald, Capote, John dos Passos, James Baldwin e Norman Mailer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-667 size-full\" src=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/unnamed-2.jpg\" width=\"400\" height=\"309\" srcset=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/unnamed-2.jpg 400w, https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/unnamed-2-300x232.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma de suas xilos dos anos 60, recebeu o sugestivo t\u00edtulo de \u201cAinda \u00e9 tempo irm\u00e3os\u201d e apresenta um personagem com o capote do Ex\u00e9rcito de Salva\u00e7\u00e3o&#8230; e a tiragem dessa gravura, precisamente, foi alvo de muitas salva\u00e7\u00f5es para o artista&#8230;Logo no in\u00edcio de sua cria\u00e7\u00e3o, Fuhro foi um dos primeiros professores do Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e disso ele jamais fez qualquer alarde, assim como tampouco explorou fatos concretos de seu exemplar curr\u00edculo art\u00edstico quando dividiu espa\u00e7os em mostras a dois com Dan\u00fabio Gon\u00e7alves nos anos 60 em Porto Alegre, Xico Stockinger em S\u00e3o Paulo, Paulo Porcella em Belo Horizonte, e a tr\u00eas, novamente com Dan\u00fabio mais Iber\u00ea Camargo, em Montevideo. Homem de poucas amizades no meio pl\u00e1stico, mesmo assim cultivou admira\u00e7\u00e3o art\u00edstica e bom relacionamento com Dan\u00fabio Gon\u00e7alves, Leo Dexheimer, Bianchetti, Vera Chaves Barcellos, Regina Silveira, Tenius, Porcella, Romanita, Jader Siqueira, Vagner Dotto, Magliani, Iber\u00ea e Xico Stockingere mais recentemente Eduardo Vieira da Cunha e Fernando Zago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca se aventurou em viagem ao exterior, embora suas obras viajassem muito&#8230; \u201dconhecia\u201d \u2013 de muita leitura, pr\u00e9-Google \u2013 todos os museus do mundo e seus acervos, podendo discorrer horas e horas sobre a obra de artistas universais, em particular os expressionistas; mas conheceu uma boa parcela do Brasil. As \u00faltimas composi\u00e7\u00f5es de seus trabalhos revelam sua preocupa\u00e7\u00e3o com o meio ambiente, com a \u00e1gua, paisagens (o rio Gua\u00edba e as lagoas do litoral) que podem ser vistas atrav\u00e9s de \u201c&#8230; janelas, como as de um computador\u201d, disse-me ele. Severo, requintado, franco, amargo quando devia, doce sem exageros, bo\u00eamio at\u00e9 certo ponto, generoso, humano. Em recente di\u00e1logo com o artista pl\u00e1stico Emanoel Ara\u00fajo \u2013 tamb\u00e9m amigo de longa data do artista &#8211; este me perguntou quanto receberia por este trabalho curatorial e a minha reposta foi apenas isso: nada, estou pagando com a moeda que melhor conhe\u00e7o, a gratid\u00e3o. Fuhro sabia que atrav\u00e9s de sua obra viveria \u201cuma continuidade gen\u00e9tica\u201d. Isso \u00e9 fato e se reflete na recente mostra curitibana \u201cA obra de arte nos espa\u00e7os p\u00fablicos de Curitiba\u201d, com curadoria de Fernando Burjato, figurando com reprodu\u00e7\u00e3o no cat\u00e1logo l\u00e1 editado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 aqui, \u201ccuidei\u201d da obra de Fuhro, agora, ela pertence \u00e0 Hist\u00f3ria.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/category\/colunistas-2\/colunistas\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-398\" src=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/avatar_renato_rosa-300x300.jpg\" alt=\"avatar_renato_rosa\" width=\"80\" height=\"80\" srcset=\"https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/avatar_renato_rosa-300x300.jpg 300w, https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/avatar_renato_rosa-150x150.jpg 150w, https:\/\/arte351.pt\/art\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/avatar_renato_rosa.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 80px) 100vw, 80px\" \/>Coluna &#8211; <b class=\"gmail_sendername\">Renato Rosa<\/b><\/a><\/em><\/h5>\n<div>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Renato Rosa, brasileiro, S\u00e3o Gabriel, RS, Brasil, 1946. Marchand, pesquisador, editor do jornal cultural O PARALELO do site <a href=\"http:\/\/www.bolsadearte.com\/oparalelo\" target=\"_blank\">www.bolsadearte.com\/<wbr \/>oparalelo<\/a>, co-autor do \u201cDicion\u00e1rio de Artes Pl\u00e1sticas no Rio Grande do Sul\u201d, (2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2000, esgotada) Editora da Universidade\/UFRGS.<\/h5>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henrique Fuhro iniciou sua carreira art\u00edstica na juventude como pintor, primeiro como um cezanesco e depois um matissiano. 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