RETRATO ESPACIAL

Ela era múltipla. Desde sempre, desde a juventude quando nos conhecemos – 1965 – e, de imediato, nos tornamos irmãos, um “contrato” que para ser obedecido dispensava palavras, bastava um jogo de olhares, uma arqueada de sobrancelhas ou até mesmo a inacreditável telepatia servia para perto ou para vencer os pontos geográficos por onde ela se estendeu.

Às vezes eu jogava pesado para sacudir-lhe para que reagisse aos embates pelos quais passou: solidão, um suposto desespero, o quase limiar da fome, o abandono, eventuais descréditos e falta de consideração, a luta contra o esquecimento e o árduo fardo da sobrevivência cotidiana.

Muitas foram as vicissitudes mas nada que determinasse rendição, arrependimento.

Frágil e delicada como figura escondia dentro de si um vulcão criativo e essa era a sua medida de enfrentamento com o mundo.

Mas o mundo embora lhe tenha sido agudo, grave e adverso, não conseguiu transformá-la em um ser magoado, raivoso, amargo.

O fruto amargo ela digeria com doçura e com muita leveza filtrava uma poética pessoal.

Sempre percebi em seus trabalhos não a desesperança mas a luta incansável da denúncia por um mundo melhor partindo de sua visão particularizada de seu entorno.

Assim me vejo nesta madrugada, no dia de seus incompletos 71 anos, imerso na saudade de Magliani, a pintora corajosa cujo legado hoje é merecidamente reverenciado.

Literalmente a minha irmã de toda a vida.

Magli, para esta noite fiz um especial chá de erva-doce…de onde estiveres, um beijo, brindemos!!!

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Coluna – Renato Rosa
Renato Rosa, brasileiro, São Gabriel, RS, Brasil, 1946. Marchand, pesquisador, editor do jornal cultural O PARALELO do site www.bolsadearte.com/oparalelo, co-autor do “Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul”, (2ª edição, 2000, esgotada) Editora da Universidade/UFRGS.

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