UMA “BOA AÇÃO” EM FAVOR DAS ARTES!

Os colecionadores de arte por muitas vezes são definidos como pessoas egoístas, que atrapalham a democratização das artes, para muitos, verdadeiros vilões. Mas os últimos anos vem nos mostrando que estes colecionadores podem ser na verdade, verdadeiros paladinos protetores das artes, e mais, pessoas com um desapego e atitude altruísta que sem dúvida vale receber nossos parabéns.

Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana – Washington DC (EUA)

Nos Estados Unidos, no ano de 2016, as cifras com de doações superou os 400 bilhões, algo superior a 10% dos valores doados nos dois anos anteriores, segundo a revista Forbes. Sabemos que estas doações oferecem facilidades e descontos em impostos, mas o aumento em valores tão relevantes, em um momento tão instável na política e economia mundial, mostram que a responsabilidade social é, para alguns, uma questão ética e de princípios democráticos.

Dentro do universo das artes, a página Artnet (www.artnet.com) publicou em dezembro de 2016 a lista das 14 mais generosas doações feitas a museus no decorrer do ano. Astros do basquete como LeBron James e Michael Jordan deram grandes quantias para a criação do recém inaugurado Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana (National Museum of African American History and Culture). Ao todo, os dois atletas doaram cerca de 7,5 milhões de dólares. Além de esportistas…artistas, celebridades, milionários e empresários estão na lista dos filantrópicos que doaram para as artes em 2016 cifras na casa dos milhões.

Os valores sensacionais doados pelos astros da NBA aparentam pouco se comparado com os 100 milhões doados pelo magnata do entretenimentos David Geffen e sua esposa. O casal se sensibilizou com o MOMA (Museu de Arte moderna de Nova Iorque) e seu projeto de expansão avaliado em 400 milhões de dólares e fez a singela doação de 1/4 do valor para o museu. Como reconhecimento, o MOMA vai nomear uma nova ala de três andares de “David Geffen Wing”, além de renomear algumas galerias no quarto andar com referência ao sobrenome do magnata. Nada mais justo, creio eu, afinal não é todo dia que uma ajuda de 100 milhões de dólares bate a sua porta.

Marlene e Spencer Hays com o presidente francês François Hollande em cerimônia no palácio presidencial de Elysée, em Paris. (2016)

Mas o casal Geffen não foi o maior doador do ano de 2016, no topo da lista estão os Hays. O casal de milionários norte-americano Marlene e Spencer Hays, conhecidos colecionadores de arte, legaram sua enorme coleção de obras-primas do final do século XIX e início do século XX ao Musée d’Orsay, em Paris. A coleção, que é composta por cerca de 600 obras, foi estimada em 350 milhões de euros. Obras de artistas como Edouard Vuillard, Pierre Bonnard e Edgar Degas estão entre as peças doadas. Os Hayses, ambos com 80 anos, oficializaram parte da doação em uma cerimônia presidida pelo presidente francês François Hollande no palácio presidencial do Elysée, em Paris, no final de 2016. Esta doação foi a maior que um museu francês recebeu em 70 anos. “Esta doação, excepcional por seu tamanho e coerência, é a maior que um museu francês recebeu de um doador estrangeiro desde 1945”, disse a ministra francesa de Cultura, Audrey Azoulay.

Se os dados de 2016 foram positivos e de deixar qualquer um impressionado com o nível da “filantropia artística” destes colecionadores, 2017 inicia com uma doação valorosa para National Gallery of Art em Washington (EUA) e ao Museu J. Paul Getty em Los Angeles (EUA). O casal de colecionadores Daniel Greenberg e Susan Steinhauser, decidiram doar centenas de obras de fotógrafos influentes do século XX, incluindo Dorothea Lange, William Eggleston e Mary Ellen Mark.

A icônica obra da fotógrafa americana Dorothea Lange, “Migrant Mother”, está entre as 143 obras da artista doadas à National Gallery of Art.

A National Gallery recebeu de “presente” cerca de 386 trabalhos de 17 fotógrafos, incluindo Berenice Abbott, Bruce Davidson e Eudora Welty. A esposa do casal doador, Susan Steinhauser, disse ao jornal The Washington Post que ela e o marido sempre se viram como donos “temporários” das obras de sua coleção adquirida durante mais de 20 anos. “Nós sempre soubemos que queríamos devolvê-los ao público”. Daniel Greenberg mostrou desejo que a coleção da fotógrafa Dorothea Lange fosse para a National Gallery of Art. “Essas imagens definem nosso país durante a Depressão, e agora residem na Galeria Nacional de Arte”. Algumas das fotos doadas estarão presentes na próxima exposição da National Gallery of Art , “The New Woman Behind the Camera,” prevista para a primavera de 2019. Abrangendo praticamente toda a carreira de Dorothea Lange, as 143 fotografias tiradas entre os anos 1920 e 1960, incluem algumas de suas obras mais conhecidas como “Migrant Mother,” “Death in the Doorway” e “Migratory Cotton Picker”. A curadora Sarah Greenough, da National Gallery of Art, ressaltou que a galeria possuía somente duas obras de Lange em sua coleção, o que fez desta doação algo realmente significativo para a instituição.

A coleção não foi oficialmente contabilizada em relação ao seu valor, mas creio que chega fácil aos 3 milhões de dólares. O casal Daniel Greenberg e Susan Steinhauser residem em Los Angeles e vem doando sistematicamente suas coleções a museus, sendo também membros fundadores do Getty Museum Photographs Council. Amantes das artes em sua essência, estes doadores dão um exemplo a ser valorizado e aplaudido pelo público, e copiado por outros colecionadores. Viva a filantropia!

Coluna – Marco Monteiro 
Marco Monteiro, brasileiro, Natal, RN, Brasil, 1975. Artista, designer, arqueólogo, escritor e pesquisador, autor do livro didático “Artes Visuais – 2º Período” (História da Arte – Editora Geração Digital – Brasil – 2013) co-editor do “Arte351 Magazine” e Doutorando em Teoria e História da Arte pela Universidade Nova de Lisboa. www.mmonteiro.com

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