A fala do viver

Sempre tive o “péssimo” hábito de falar sozinho. Desde cedo e de meus tempos mais remotos.

Lembro que os então amigos de infância gritavam por meu nome sobre a cerca do quintal com uma irrecusável proposta para tomarmos banho no arroio. Recusava e passava tardes inteiras atirado sob a sombra acolhedora de uma pitangueira, sobre uma colcha estendida lendo meus gibis. Adorava ler. Quando entrei para o colégio já era alfabetizado – e por isso causei estranheza, ódio – e quando nasci plantaram dando vivas a chegada do primeiro neto, uma figueira, uma pitangueira, um pé de camélias brancas e uma roseira.

Ao longo do tempo a pitanga e o figo transformaram-se em minhas frutas preferidas juntando-se a isso, camélias e rosas brancas, para mim signos de vida, os eleitos da minha vida. É isso, vida, eu sou vibrantemente vida. Lembro que já na vida adulta e ao tempo que fazia teatro veio à público a obra do dramaturgo gaúcho José Joaquim de Campos Leão que passou para a História como Qorpo Santo,  assim mesmo com “q”. E uma de duas peças trazia o expressivo título de “Eu sou vida não sou morte”.

Da vida sempre me ocupei e da morte dificilmente ou quase nunca cogito. Mas nos tempos atuais ela é dominante e ouço lamúrias dos que gostariam de ter vinte anos menos ou ainda os que relatam fato e feitos que escapam da perspectiva real pois afinal de contas o dito popular indica que “morto não fala” então os garbosos (ou as garbosas) contadores de histórias usam os mais lindos confeites para enfeitar seus “bolos”. Eu, me restrinjo a evitar ao máximo narrativas envolvendo o passamento de pessoas, próximas ou distantes mas por medo de que, como reza a lenda, “venham à noite me puxar os pés”.

Concluo e não custa lembrar que a esperteza anda solta. Isso me faz lembrar do magistral filme dirigido por Peter Bogdanovich, “Paper moon”, no qual Ryan O’Neil interpreta um vigarista durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos genialmente secundado por sua filha Tatum O’Neil, no verdor de seus sete anos (ganhando o Oscar).

Essas relembranças acentuam o fato de que continuo falando sozinho.