Instalação Performática de Ana Vitória estreia amanhã

Estreia no dia 24 de maio, 21h30, no Teatro das Figuras, em Faro, a Instalação
Performática “Encruzilhada”, um trabalho de Ana Vitória sobre as cadeias matrilineares
que a artista brasileira construiu a partir de relatos recolhidos em Residências Artísticas
de norte a sul de Portugal. Espetáculo apresentado no âmbito do motus – Festival
Internacional de Performance de Arte de Faro.

 

Ana Vitória coloca-se neste centro, lugar de atravessamentos e encruzilhada, para dar
corpo, tónus afetivo, voz e presença à memória de mulheres de ontem, de hoje e de
amanhã, na busca de recuperar o desamparo ancestral de cadeias matrilineares, na
qual bisavós, avós, mães, filhas, netas e bisnetas – que nada ou muito pouco sabem
das suas histórias – se unem num ritual performativo, em consonância com o
pensamento da arte como um disparador da existência.

A PERFORMANCE

É a partir dos relatos recolhidos nos encontros das Residências Artísticas de norte a sul
de Portugal que Ana Vitória vai incorporando a gestualidade de “Encruzilhada”. Neste
percurso, as memórias afetivas ativadas pelas oficinas de Conscientização do Corpo
Sensível e manipulação de objetos-relicários afetivos, vão sendo recuperados os
gestos herdados de cadeias matrilineares do passado e reativados no presente.
A partir da seleção desses gestos, Ana Vitória segue construindo no seu corpo, a cada
novo encontro, a cartografia afetiva dessas histórias orais e dos seus legados que,
atravessados por gerações e gerações, ainda sobrevivem nos corpos silenciados e em
constante apagamento social das mulheres.
Aqui a ideia de embodyment ou incorporação assume o centro desta arena onde
passado e presente se unem num ritual performativo a partir de arquétipos femininos,
mitos e ritos, e celebram vozes do presente.

 

A INSTALAÇÃO

Num espaço expositivo reúnem-se peças escultóricas construídas pela artista,
fotografias anónimas de rostos de mulheres em desaparecimento, objetos cirúrgicos
usados em intervenções ginecológicas e tantos outros do uso doméstico feminino que
reconduzem o olhar do espetador para este universo singular.
Todos os relicários afetivos de objetos memoriais foram recuperados pela artista em
feiras, lojas de segunda mão e antiquários – a partir das histórias sobre as cadeias
matrilineares das mulheres que prestaram seus relatos para a construção desta obra –
e foram recobertos com gazes cirúrgicas como um ato curativo.
Esses objetos, reencontrados como uma arqueologia afetiva, carregam em si histórias,
energias e marcas das suas existências bem como desafetos, que ao serem revestidos
por gazes cirúrgicas lhes dão agora um novo significado e um outro lugar no mundo.

 

Ana Vitória (1969)
Coreógrafa, bailarina e artista visual.
Pós Doutora em Artes da Performance (FMH-UL-Portugal) e PhD. em Arte-Performances
do Corpo pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO/Brasil).
Coreógrafa premiada e diretora artística da Cia. Ana Vitória Dança Contemporânea
fundada em 1997, bailarina e artista visual, tendo criado diversas Instalações e Vídeos
de Dança com foco nas poéticas corporais, autoperformance e memórias
autobiográficas.
Coordenadora Adjunta do Mestrado Profissional e do Curso de Pós-Graduação em
Preparação Corporal para as Artes Cênicas da Faculdade Angel Vianna- FAV/Brasil e
Investigadora colaboradora pelo Inet-MD (FMH-UL-Portugal), Sens-Lab (Canadá) e
NEPAA (Núcleo de estudos da Performance Afro-Ameríndia-Brasil).
Há 22 anos que Ana Vitória tem vindo a desenvolver e aprofundar a sua pesquisa
artístico/pedagógica de criação a partir da memória e autobiografia, apoiada nos
Estudos da Performance. O seu Sistema investigativo – (Re)Aprendizagens Afetivas –
posiciona-se no entrelaçamento entre vida e arte e ação poético-performativa. Este é
o tema da sua Tese que será lançada em livro ainda em 2022.

Ana Vitória divide-se hoje entre Brasil e Portugal, desenvolvendo projetos em intercâmbio com instituições académicas, culturais e terapêuticas.

FICHA TÉCNICA
Criação, Instalação e Performance – Ana Vitória
Desenho de Som – Nuno Veiga
Desenho de Luz – Mafalda Oliveira
Realização Instalação – Cristóvão Neto
Fotografia – Bruno Veiga
Vídeo – Bruno Canas
Vídeo dança – Ana Vitória e Pedro Senna Nunes
Apoios: DGARTES, Teatro das Figuras, Espaço Santa Catarina- Câmara Municipal de
Lisboa, UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), MIMA (Museu Internacional
da Mulher), OMA (Observatório das Mulheres Assassinadas).