Carlos Reichenbach e a Questão Colonial: as retrospetivas da Cinemateca com o Doclisboa em 2022

A obra de Carlos Reichenbach e uma mostra temática intitulada A Questão Colonial são as propostas da Cinemateca para as retrospetivas conjuntas com a edição deste ano do festival Doclisboa, que decorrerá entre os próximos dias 6 e 16 de outubro. 

Carlos Reichenbach (1945-2012) é um dos principais nomes do chamado Cinema Marginal, movimento surgido como reação ao Cinema Novo e à sua institucionalização.

Autor de mais de duas dezenas de filmes, entre curtas e longas, realizadas ao longo de mais de 40 anos de carreira, Reichenbach foi um dos principais nomes associados ao cinema da Boca do Lixo, região central da cidade de São Paulo.

Foi aqui que um conjunto de cineastas brasileiros levou a cabo a tarefa de criar produções de baixo orçamento cuja principal característica era serem um espaço de experimentação, mas em simultâneo tivessem apelo popular e espelhassem a realidade brasileira da altura dominada pela ditadura militar, não ligando às regras de produção nem à distribuição nos circuitos comerciais.

Da filmografia de Carlão (como era carinhosamente tratado por colegas e admiradores) destacam-se filmes como Lilian M. (1974), Amor, Palavra Prostituta (1981), O Império do Desejo (1980), Filme Demência (1985), Anjos do Arrabalde (1987), e Alma Corsária (1994).

A Questão Colonial será o outro pólo das retrospetivas conjuntas entre a Cinemateca e o Doclisboa, no ano em que se assinalam os 60 anos da declaração de independência da Argélia. A data é pretexto para um olhar sobre a memória do colonialismo e essa história comum a países colonizadores europeus e países africanos colonizados a partir do cinema.

A retrospectiva revela uma filmografia de cinco décadas, que inclui vários filmes nunca antes mostrados fora do Brasil. Uma ode à utopia, ao sonho e ao desejo.

A obra do realizador brasileiro junta-se à já anunciada Retrospectiva A Questão Colonial, um programa que viaja entre 1950 e os dias de hoje, examinando a história da colonização, das guerras e da luta pela independência dos países africanos. Um passado comum a França e Portugal, mas sobretudo a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Argélia, Tunísia, Senegal, Mali, Níger, entre outros, e que, neste programa, é debatido a partir do cinema documental de René Vautier ou Margarida Cardoso, das reconstruções ficcionais de José CardosoLicínio AzevedoAssia Djebar ou da reflexão sobre a própria ideia de reconstituição pela dupla Filipa César e Sónia Vaz-Borges ou por Ruy Guerra.  

É este cinema, testemunha do mundo colonial e que procura restituir as imagens de um mundo que foi privado de si mesmo pelos impérios ocidentais, que esta retrospectiva procura mostrar em Outubro, no âmbito da Temporada Portugal-França 2022.