Na interseção entre arte, poesia e espiritualidade, Braga acolhe a exposição “Verbo Visivo: uma tríade de Giancarlo Pavanello”, integrando pela primeira vez o programa da Semana Santa. De 21 de março a 20 de abril de 2025, a obra do artista italiano Giancarlo Pavanello ocupará três espaços emblemáticos da cidade — Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Museu Pio XII e zet gallery —, numa celebração que une o Dia Mundial da Poesia à Páscoa, convidando o público a refletir sobre a palavra, o sagrado e a matéria.
A Arte como Ato de Resistência
Nascido em Veneza em 1946 e radicado em Milão, Giancarlo Pavanello é um nome que desafia categorias. Autodidata, começou a criar tardiamente, após uma juventude marcada pela oposição familiar à sua vocação artística. Formou-se em Letras, doutorando-se com uma tese sobre Jean Genet, mas foi nas artes visuais que encontrou sua voz. Utilizando papel, colagem, caligrafia e fotografia, seu trabalho dialoga com a Arte Povera — movimento que valoriza materiais simples como feltro, metais e resíduos — e a Poesia Visual, onde texto e imagem se fundem em composições que desafiam a lógica.
“Sua obra é um manifesto silencioso”, explica Helena Mendes Pereira, curadora da exposição e diretora da zet gallery. “Pavanello transforma letras em paisagens e palavras em símbolos, questionando o que é visível e o que permanece oculto. Nas suas Vias-Sacras, por exemplo, a Paixão de Cristo é reinterpretada através de traços que unem dor e transcendência.”
Três Capítulos, Uma Narrativa
A exposição divide-se em três atos, cada um num espaço distinto:
- “Alotropias literárias” (Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva): Explora a metamorfose da palavra escrita, onde textos ganham formas escultóricas.
- “Singloxias e Afonologias” (Museu Pio XII): Foca na relação entre som e silêncio, com obras que parecem congelar gritos e sussurros.
- “Ut pictura poesis” (zet gallery): Uma ode ao diálogo entre poesia e pintura, com peças que borram fronteiras entre as duas artes.
Com mais de 300 trabalhos produzidos desde os anos 1960, a mostra revela a evolução de Pavanello — de suas primeiras colagens anárquicas às Vias-Sacras, síntese de sua maturidade artística e espiritual.
Inauguração: Procissão Poética e Música Inédita
A abertura, no Dia Mundial da Poesia (21 de março), promete ser memorável. Às 16h, uma procissão poética pela Companhia de Teatro de Braga percorrerá os três espaços, encenando versos de autores portugueses. O ápice será a apresentação de um tema inédito de Pedro Abrunhosa, composto a partir do poema “Sexta Feira Santa”, de D. Tolentino de Mendonça.
“A música nasce do mesmo impulso que move Pavanello: a busca do sagrado no cotidiano”, adianta Abrunhosa. O poema, que reflete sobre a dor e a redenção, ecoa as Vias-Sacras do artista, criando uma ponte entre a Semana Santa e a arte contemporânea.
Um Catálogo que É Obra de Arte
O catálogo da exposição inclui textos de figuras como o Pe. Mário Rui de Oliveira (Vaticano), o escritor Carlos Poças Falcão e a curadora Helena Mendes Pereira, oferecendo uma leitura multifacetada da obra de Pavanello. “É um objeto que complementa a exposição, mostrando como sua arte ressoa em áreas tão diversas quanto a teologia e a literatura”, afirma Mendes Pereira.
Informações Práticas
- Quando: 21 de março a 20 de abril de 2025
- Onde:
- Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva
- Museu Pio XII
- zet gallery
- Inauguração: 21 de março, com programa a partir das 16h (entrada livre)
- Entrada: Gratuita
- Contactos: Manuel Costa (915 287 187) | Mariana Fortes (911 587 923)
“Verbo Visivo” não é apenas uma exposição — é uma peregrinação. Pelas salas de Braga, Giancarlo Pavanello convida-nos a ver o mundo com olhos de poeta, onde cada letra é um passo em direção ao mistério. Como escreveu D. Tolentino: “A arte é a geografia do invisível.” E aqui, o invisível ganha corpo, voz e fé.

