EU, O PASSAGEIRO DA NOITE – CRÔNICA RENATO ROSA

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Poster by Michael Korfhage & Joel Anderson – A venda na Anderson Design Group (Link)

O Rio de Janeiro é uma cidade tão interessante que chega a ponto de nos oferecer situações inusitadas quando não desconcertantes. Ver jovens adolescentes do mesmo sexo passearem livres, felizes e aparentemente libertos é lugar comum. Reparar pra quê? É normal, é natural. Mulheres que levantam as roupas sem cerimônia e agacham-se entre os carros para livrar-se de apertos…normal…. saneamento básico é a rua mesmo, natural. Talvez uma análise mais acurada nos leve a conclusão de que se trata de pessoas que moram no subúrbio ou muito mais além e venham passear e viver suas aventuras em bairros mais arejados na cidade-estado, longe da vigilância de pai e mãe e de alguma possível religião repressora. Essa situação é pontual, mesmo. Mas o que hoje me assombrou deveras foi pegar um táxi para ir de Ipanema ao Leblon. Fiz sinal. Parou. Abri a porta. Entrei. Dei boa noite ao motorista e indiquei-lhe o roteiro preciso. Acho que sofro de TOC pois meu sentimento de “ser” um GPS nessa hora é incontornável. E lá nos fomos (de cara disfarcei a surpresa imediata que havia no automóvel). Percebi que a necessidade é a “mãe ” de muitos desatinos nesta vida. Algumas quadras adiante o motorista me faz a óbvia pergunta e respondo-lhe com uma quase muda afirmativa. Meu relógio marcava 20h30min e ele me informa que teria que dirigir até às 23hs quando então ganha curso o inevitável diálogo.
– O senhor notou o meu co-piloto?
– Sim. Claro.
Contou-me que era separado da mulher e trazia deitado num improvisado berço em que transformara o banco a seu lado, o filho dormindo profundamente seu inocente sono. Essa criança teria quase três anos. Ele dirigia com extremo cuidado. Inclinei-me e ajeitei melhor os pequenos braços e pernas daquela pequena concha humana. Chegados ao destino, agradeço e pago – juro que é verdade – o triplo do valor da corrida e ainda em tempo de dizer-lhe:
“-Não se preocupe com o troco. É uma pequena contribuição para que hoje o senhor chegue mais cedo em casa.” (Depois comentando com o amigo com quem fui jantar ainda ponderei que a cena poderia ser fake, uma montagem para enternecer corações moles como o meu…tudo é possível…).
Ele, o motorista incrédulo, me olhava ainda com o troco na mão quando resolvi perguntar-lhe o nome da criança.
– Jesus.
Eu queria me rasgar ao meio.
– Boa noite.
Fechei a porta de vidros escuros, desci do carro e Jesus sumiu na noite carioca com seu pai. Será que o pai de Jesus não teria pensado ter conduzido um Rei Mago? Rogo para que não tenha pensado semelhante bobagem.
Jesus sumira na noite carioca com seu afortunado pai.

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Coluna – Renato Rosa
Renato Rosa, brasileiro, São Gabriel, RS, Brasil, 1946. Marchand, pesquisador, editor do jornal cultural O PARALELO do site www.bolsadearte.com/oparalelo, co-autor do “Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul”, (2ª edição, 2000, esgotada) Editora da Universidade/UFRGS.

One Reply to “EU, O PASSAGEIRO DA NOITE – CRÔNICA RENATO ROSA”

  1. Maryur Silber says: Responder

    Maravilhosos: texto e foto. Renato Rosa é um cronista sensível e bem informado.

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