Ciclo de cinema mudo com entrada gratuita na Casa da Achada

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Até 30 de março, todas as segundas são exibidos filmes no contexto do ciclo de cinema mudo, na Casa da Achada

O programa do ciclo de cinema mudo está imperdível. Todas as segundas-feiras, pelas 21h30, a Casa da Achada exibe curtas e longas, com apresentação e, sempre que se proporcione, conversa no final da projecção.

Limite – eleito o melhor filme brasileiro de todos os tempos, o único filme escrito e dirigido pelo cineasta, roteirista e escritor brasileiro, Mário Peixoto, será exibido na próxima segunda (17). O filme causou muita polêmica e até vandalismo nas primeiras exibições, sendo por muitos anos, não foi exibido novamente. Trata-se de duas mulheres (Olga Breno e Tatiana Rey) e um homem (Raul Schnoor) que relembram seus passados enquanto estão em um barco à deriva.

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Cena de ‘Limite’ (1931), filme de Mário Peixoto

Confira o programa:

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Ciclo de cinema mudo

Enquanto espectáculo, o cinema nasceu na balbúrdia da feira, entre o homem músculo e a contorcionista. Esse magnífico feito e defeito de nascença, esse parto num cenário de cultura popular – que não no quadro das raras artes e musas – deixou marcas importantes no seu mais que centenário corpus.

Coube ao cinema narrar sem esculpir frases, descrever sem pintar a macaca e a manta da sintaxe escrita, retratar, referir, resumir, representar, etc., sem recorrer ao capital acumulado das figuras de estilo, coube-lhe dizer a quem não tinha instrução, contar a quem não tinha conta bancária, recordar a quem não fora concedido o tempo de fabricar memória.

Sabe-se que o cinema não nasceu no silêncio. O barulho das máquinas de projectar, o espesso burburinho dos locais de projecção não domesticados e os acompanhamentos musicais desde muito cedo acrescentados às imagens – para já não falar dos sons internos aos planos, sejam eles o comboio a entrar na estação, a gente a caminhar e conversar, o cão a ladrar, o bebé a chorar, o polícia a apitar… – invalidam o conceito de «silent movies». Donde a relativa justeza da oposição mudo/falante, para distinguir o cinema sem palavras daquele que recorre aos diálogos, colocando-os demasiadas vezes no centro de uma dramaturgia visualmente frágil.

Este pequeno ciclo, a que foi dado o título de MUDO – «mudo» é o mundo a que falta o N, eu mudo, tu mudas, ela muda, etc. –, apresenta-se como um regresso às fontes, através de filmes realizados por pioneiros que inventaram o cinema como forma de expressão artística, mas também como vigoroso lembrete de filmes de elevadíssimo valor poético e político cujos realizadores prescindiram, num tempo em que a esmagadora maioria dos filmes era desde há muito falante e frequentemente verbosa, do recurso à palavra,

O ciclo de cinema mudo fecha com um programa de três obras pouco expectáveis, que serão fonte de inspiração concreta – partitura visual, digamos – para peças musicais inéditas interpretadas na última sessão.

Todas as sessões têm apresentação e, sempre que se proporcione, conversa no final da projecção.