Caetano: Uma Odisséia no Espaço

Quando Caetano se despediu ontem, no final de seu show que encheu de esperança e uma alegria nostálgica o coração do Brasil, desejando FELIZ 2001! não foi um ato falho e nem uma confusão comum a nós, os ” homens velhos”.

Foto by Mariza Alvarez de Lima

Percebi que algum significado da qualidade de seu Cinema transcendental temperava o recheio da sua fala. Não que ele seja homem de “mensagem “. Isso é coisa da militância estudantil que o vaiou no palco do Festival da Canção em priscas eras, época em que os nefastos militares entendiam as entrelinhas das coisas, apesar da truculência de sempre, e o encarceraram porque não era possível deixar livre um homem que espantava os urubus que passeavam entre os girassóis no Planalto Central do país, e promovia a maior revolução cultural depois da Semana de Arte Moderna de 22. VIVAVAIA ! ” São vcs que querem tomar o Poder????”

Recentemente, na live anterior, ele se declarou socialista. Desiludiu-se com a Democracia liberal, assim como com as formas empíricas do socialismo que nunca aceitou e por esse motivo sempre ter sido alvo das patrulhas ideológicas. As mesmas das quais ele libertou a minha geração para poder ouvir ” aquela canção do Roberto, baby ” e ignorar a passeata contra a guitarra na MPB, liderada pelo iminente crítico musical do Partido comunista, José Ramos Tinhorão, aquele que desconheceu a presença das guitarras nos trios elétricos da Bahia.
O socialismo que Caetano parece acreditar é o que repetiu ontem numa canção dos anos 70/80, o do LUXO PARA TODOS. É o da mistura de todas as linguas sem a confusão na Torre de Babel, mas no entendimento e na assimilação da essência democrática do Manifesto Antropofágico.

Feliz 2001 como nós ficamos, perplexos, diante do monolito cheio de significâncias que Kubrick anunciou no seu indecifrável aviso, como os pastorinhos diante da Virgem de Fátima recebendo as cartas da Santa.E que, pouco a pouco, foram revelando as tragédias anunciadas e inimagináveis.

Feliz 2001 como se este Milênio não valesse. Fosse apenas o trailer indesejado do filme que começamos a viver e vem sendo pior do que todas as cabeças maléficas, concentradas no Roteiro do mais terrível filme-catástrofe, pudessem criar.
Feliz 2001 como dizia Jeanne Moreau em Jules et Jim, sempre que escolhia ficar com um dos seus dois homens, livrando-se/os da culpa : ” En commence a zero !”. Como se na vida houvesse a chance do take II.

Ontem, ouvindo ele cantar Leãozinho, Terra ( de quando ” eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia”), Lua ,Tigresa, me passou pela cabeça o quanto oportunas elas se tornaram nesse momento de ameaças ao Meio Ambiente, aos animais, e à própria Terra, envenenada por nós, seus habitantes, e aqui no Brasil ameaçada duplamente pelo avanço da extrema direita , cuja característica sempre foi o seu grito anunciador de VIVA A MORTE ! E ódio pela Cultura.Como essas músicas da minha Juventude se revestiram de outros significados hoje ! Isso é Caetano.A ressignificação dos símbolos na sua atemporalidade.

Mesclando dionisíacos meninos do Rio com pretos tão pretos, o Haway paradisíaco das penas de pavões, com o Haiti, as bichas e as cores de seu amigo Almodovar com a puta de uma outra esquina neorrealista de Cabiria, Menininha do Gantois com Pina Baush, Gaudi com Helio Eichbauer, Vicente Celestino com os irmãos Campos , o araça azul experimental com a doçura da cajuina de Torquato Neto, o gemido intermitente dele próprio no filme de Leon Hirszman e Cucurucucu Paloma, um passeio retrospectivo no compasso da Bossa Nova de João Gilberto, pelo painel mais amplo da nossa Contemporaneidade cultural e trilha musical afetiva da vida dos brasileiros da nossa geração.
Ao rejeitar o flashback de um Papai Noel de Inverno e sujo de neve de sua Infância, onde se salva o cheiro das folhas das pitangueiras e a areia branquinha que seus pés irão pisar,não é para juntar-se ao coro dos descontentes com o colonialismo cultural, bandeira da xenofobia e da intransigência. Logo ele, que canta Irvin Berlin e o negro pobre americano de brinco de ouro, e aforaria saber dançar como Michael Jackson, mas é pq preferiria o cubano Bola de Nieve, homossexual, preto e gordo,.ninando o Menino Jesus na manjedoura cantando Drume negrita. 2001 é a Esperança de ver os netos crescerem. Apesar da novena de D.Canô ter prosseguido por mais de um século.

Feliz 2001 Caetano ! Com tudo mudado! TUDO!

Luiz Carlos Lacerda, Cineasta (Colunista Arte351)