“As Mãos”, dedicado ao escultor norte americano Richard Serra

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As mãos, dedicado a Richard Serra

A mão é um elemento que abre e fecha como uma vulgar torneira. É um elemento que agarra ou deixa cair como uma vulgar pinça. E a mão bebe: a água pousada sobre ela perde quantidade para um sítio que não se sabe exactamente qual é, mas será um buraco, um espaço vazio que se torna receptor, como um copo. Se fossemos minuciosos na medição das quantidades que se perdem na mão atenciosa que segura a água, veríamos: a mão bebe.

E há também as múltiplas maneiras de a mão raciocinar: não fala, mas pensa (nos mudos fala), e desenha e escreve. E faz.

Sem mãos o homem seria apenas um animal falante. Não poderia fazer o que diz. Poderia apenas dizer o que os outros fazem. Não seria o rei da Criação, seria apenas o Imperador do Discurso.

Gonçalo M. Tavares

 

Richard Serra ‘Hand Catching Lead’ 1968

A mecânica do cinema baseia-se na divisão do filme em frames, projetados um após o outro a uma taxa fixa de 24 quadros por segundo, dando uma ilusão de continuidade. O filme de Richard Serra, Hand Catching Lead, ilustra o mecanismo. Ecoando o movimento vertical do filme através do projetor, pedaços de tela caem no campo da imagem. A mão de Serra abre e fecha enquanto tenta pegá-los, e quando consegue, imediatamente os deixa ir novamente, reproduzindo o avanço intermitente do filme. Mas isso não é tudo, pois à medida que a ação avança, a mão de Serra, enegrecida pelo chumbo, semelhante a uma sombra, assemelha-se à silhueta de um cachorro tentando pegar algo que foi jogado, remetendo a mecânica do cinema voltando às suas origens como na arte do teatro de sombras. Hand Catching Lead Hand Catching Lead.

Fonte: https://filmow.com/hand-catching-lead-t252807/

 

GONÇALO M. TAVARES escreve sobre Richard Serra em Dicionário de Artistas > textos sobre artistas contemporâneos nas plataformas digitais do Centro Cultural de Belém. Este é o episódio #46. Todas as quartas-feiras, o CCB disponibiliza um texto inédito de Gonçalo M. Tavares sobre artistas contemporâneos, com leitura de Ana Zanatti.

Para ler em www.ccb.pt e ouvir no spotify do CCB