Os muitos paus de reis de paus, por Ronaldo Werneck

Que tens, caralho, que pesar te oprime/ que assim te vejo murcho e cabisbaixo/ sumido entre essa basta pentelheira,/ mole, caindo pela perna abaixo.

Essa é uma das inacreditáveis estrofes do também in totum inacreditável “O Elixir do Pajé”, do não menos inacreditável poeta
mineiro Bernardo Guimarães, membro da mui nobre (vejam só!) Academia Brasileira de Letras. O livro, publicado em 1875,
naturalmente deu o que falar e está esgotadíssimo até hoje (por acaso, tenho um exemplar, que anda sumido no emaranhado de minhas estantes).

Quando publiquei meu livro “Noite Americana/Doris Day by Night”, Affonso Romano de Sant´Anna me mandou um email: “você está virando o poeta mais sacana de nossa poesia, indo além do Bernardo Guimarães com esse “Elixir” de Copacabana. Coisa do doido, sô! como dizia o Hélio Pelegrino! No mais é província ideal fluindo dentro de nós”.

Pois bem, passo agora o troféu de “poeta mais sacana de nossa poesia” para Luiz Carlos Lacerda, meu amigo, o poeta- cineasta Bigode. Seu livro “Reis de Paus” (editado pela Mariposa Cartonera, Recife 2017), é mais, muito mais fescenino que o meu e
traz um ar de homoerótica elegância, de nonchalance, que se alça ao largo do que existe de “sacana” no Elixir do nobre Bernardo.

Como nesse “Novela das Nove”: Na TV/ olha para as mulheres como se fosse comê-las/ como num comercial de shampoo// na sauna/ não tira a mão da cueca/ do Arcanjo pelado/ ao lado// lambe de desejo/ o pescoço salgado/do outro/ como num poço/ sem fundo. “Como num comercial”, “como num poço” – implícito, sente-se o verbo “comer” em seu duplo sentido: comer “como” se voraz e sexualmente atraído por um poço sem fundo.

Ou no poema-título “Reis de paus”: corola lilás intumescida/ de onde jorra o mingau/ o suco escorre na fenda/ de seu amigo/ e há outro pau// duelam picas na cama/ somos todos iguais/ que ainda caiba no outro/ o gladiador varal// espátula de dor/ penetrando/ todo o seu carnaval/ carne vale/ valha a carne/ e há outro pau.

 

Muito bem cuidado graficamente, com fortes e “ousadas” ilustrações de fino (melhor grosso?) trato – ilustrações e capas produzidas à mão (polissemicamente comme il faut!) e com traços únicos do artista Victor Arruda –, o livro de Luiz Carlos Lacerda é um gozo só, capaz de literalmente satisfazer a leitores/as de variadas e desvairadas estirpes. Um inesperado e raro prazer, como na inventividade a palo seco (ou “a pau seco”?) desse “O homofóbico” que fecha o livro: engoliu a chave do seu rabo/ para nenhum abre-te sésamo/ o despertar.

E durma-se com um sex-barulho desses! Um sex-sem-cessar- sans-cesse de mãos em frenesi, peles, paus & os cambaus.

Ronaldo Werneck
Cataguases, 21/11/21