A CRIANÇA – Imprensa francesa elogia produção Leopardo Filmes

Depois da estreia mundial, em Janeiro, no IFFR – International Film Festival Rotterdam, o primeiro dos grandes festivais europeus do ano, na Selecção Oficial na Tiger Competition, a mais importante do festival, e da estreia portuguesa nas salas em Fevereiro, A CRIANÇA, primeira longa-metragem de Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois, produzida por Paulo Branco e Juan Branco, estreia-se em França esta quarta-feira, 20 de Abril, em três salas em Paris e nos cinemas de 7 outras cidades francesas.

A imprensa e a crítica francesas tecem grandes elogios ao filme. Os Cahiers du Cinéma dedicam-lhe duas páginas no número de Abril, com uma crítica de Charlotte Garson e uma entrevista aos realizadores. No Le Monde, Mathieu Macheret realça “o espírito de juventude que sopra sobre o filme”, a “beleza da sua escrita elíptica”, e “um grito de raiva em voz off”. Os Inrocks relevam a fotografia “sumptuosa e límpida” de Mário Barroso e a revista Positif o encontro com um tema caro ao romantismo alemão, o do indivíduo numa encruzilhada de caminhos, como o Wilhelm Meister de Goethe.

Nesta adaptação livre do conto “Der Findling”, de Heinrich von Kleist (“L’Enfant trouvé” na tradução francesa e que está publicado em Portugal com o título “O Órfão”, numa tradução de José Maria Vieira Mendes), Hillerin e Dutilloy-Liégeois, também autores do argumento, transportam o filme para o século XVI português. Lisboa é uma cidade cosmopolita, onde o apogeu de um poder que a expansão trouxera se começa a esboroar, ao mesmo tempo que se sente instalar a rigidez de uma Inquisição cada vez mais prepotente. Perto de Lisboa, Bela (João Arrais), um adolescente adoptado por um casal franco-português de abastados negociantes, vive uma intensa história de amor com Rosa (Inês Pires Tavares) e uma história de amizade com Jacques (Loïc Corbery), amigo dos pais adoptivos. Bela tenta encontrar o seu lugar, mas uma sucessão de acontecimentos (causados por equívocos e ambiguidades, ou pelo ciúme…), conduzem ao desastre.

CRIANÇA é uma produção da Leopardo Filmes (em co-produção com a Alfama Films e a RTP) e conta com um elenco onde pontuam muitos dos melhores actores e actrizes portugueses, entre eles João Arrais, Inês Pires Tavares, Alba Baptista, Maria João Pinho, Albano Jerónimo e João Vicente, e ainda os actores franceses Loïc Corbery (da Comédie-Française) e Grégory Gadebois (“J’accuse – O Oficial e o Espião”, de Polanski, e “Correu Tudo Bem”, de Ozon).

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«Magnificamente enquadrado, “A Criança” é um filme de espectros e fantasmas que não encaixam uns nos outros. O director de fotografia Mário Barroso (colaborador frequente de Manoel de Oliveira ou João César Monteiro) apresenta-nos uma imagem absolutamente sumptuosa e límpida, como um cenário maravilhoso ao serviço de uma história complexa contada por dois jovens cineastas ambiciosos, que assinam com “A Criança” a sua primeira longa-metragem.»

Jean-Baptiste Morain, Les Inrockuptibles

«Que bela aposta a deste filme que adapta o conto de Heinrich Von Kleist, “L’enfant trouvé”, optando por uma meditação poética sobre a narrativa em vez de uma simples adaptação.[…]

O filme vai ao encontro de um dos temas do romantismo alemão: o do indivíduo numa encruzilhada, como o Wilhelm Meister de Goethe. E depois, ao ouvirmos versos e pensamentos de Kleist tirados de outras obras suas, encontramos uma dimensão evocatória, implementada pela delicada qualidade da fotografia de Mário Barroso.»

Jean-Philippe Domecq, Positif

«O espírito de juventude que respira em “A Criança” não deve nada a quaisquer marcadores geracionais. Este sente-se, acima de tudo, no seu recurso aos aspectos mais elementares do cinema: cenários inundados de luz, um esplêndido teatro naturalístico, fotografado de dia como de noite pelo grande Mário Barroso, uma combinação de jovens actores com nomes mais experientes (dois dos quais membros da Comédie-Française), uma atenção ávida aos desvios linguísticos entre o português e o francês, com o texto como bússola e os estados do corpo como uma gama expressiva.
A outra beleza do filme deve-se à sua escrita elíptica: esta forma de “andar à volta do assunto” preserva no texto um fundo cego, uma zona de hesitação. Nestes interstícios prospera uma força insidiosa: a Inquisição que gentilmente enterra as suas garras quer nas personagens, quer no reino. E o filme que se encerra num grito de raiva em voz-off: “Cuspo nos reis, na Igreja e nos todo-poderosos.” Prova que das entranhas da história brota uma força política, uma cólera que tudo tinge de cores violentas e nos convida a tudo reconsiderar a partir do início.»

Mathieu Macheret, Le Monde

«“Os ventos conferem às árvores o ritmo de um mau senhor que bate nos seus servos”, resume Pierre, poeta nos seus tempos livres, mesmo que não saiba comer geleia sem sujar a barba. É com estes detalhes triviais que o filme surpreende ao ser tão composto e ao mesmo tempo tão heterogéneo. Este duo de jovens argumentistas e realizadores impressiona ao recusar hiperbolizar as situações e monumentalizar a História – A Criança nunca sublinha a pressão da Inquisição, mesmo que esta apanhe a pequena comunidade que se sente tão longe dela; em momento algum se aproveita das epopeias marinhas da época, deixando de fora personagens que possivelmente mentiam nas suas viagens. Mesmo a natureza, que estremece ao redor, pode muito bem murchar em promessas de presenças irruptivas, de crianças nunca encontradas, de frutos que ninguém será capaz de colher.»

Charlotte Garson, Cahiers du Cinéma