Calafrio: Mariana Duarte Santos investiga o medo mediado e a fragilidade do olhar contemporâneo
Entre o íntimo e o coletivo, entre a memória cultural e a avalanche de estímulos contemporâneos, a artista portuguesa Mariana Duarte Santos apresenta Calafrio, uma exposição que transforma o medo em experiência visual e sensorial. Inspirada pela estética do cinema noir e pela linguagem cinematográfica, a mostra propõe uma reflexão sobre a forma como os meios de comunicação moldam percepções, emoções e comportamentos sociais.
A exposição parte de uma questão central: até que ponto o medo é mediado ou é realmente nosso? Em pinturas de atmosfera densa e silenciosa, Mariana Duarte Santos examina as fronteiras frágeis entre o privado e o público, revelando como a ansiedade coletiva se infiltra no cotidiano através das imagens, das notícias e da repetição incessante de informações. Embora o mundo contemporâneo esteja marcado pela hiperconectividade e pela presença contínua dos media, Calafrio evidencia que este mecanismo não é novo. O medo sempre circulou — pelos jornais, pelo rádio, pelo cinema e pelas narrativas compartilhadas de geração em geração.
A artista constrói a exposição como uma sequência cinematográfica. O visitante percorre o espaço quase como quem atravessa cenas de um filme: primeiro confronta o medo privado em The Room; depois presencia o momento em que os media invadem a esfera pessoal em The Message; e, finalmente, chega à pressão avassaladora da massa pública em The Crowd. A narrativa visual revela como a apreensão individual pode rapidamente transformar-se em pânico coletivo, num ciclo histórico que se repete sob diferentes formas.
Baseando-se em fotogramas de filmes antigos e imagens de arquivo, Mariana Duarte Santos demonstra interesse pelos mecanismos intemporais através dos quais a imagem molda a emoção humana. As suas pinturas carregam uma tensão constante entre silêncio e exposição, sugerindo que a ansiedade contemporânea está profundamente enraizada em experiências culturais do passado. Em vez de oferecer respostas, Calafrio convida o espectador a reconhecer os padrões que atravessam épocas e sociedades.
Nascida em Lisboa, em 1995, Mariana Duarte Santos estudou numa escola secundária especializada em artes e posteriormente dedicou-se ao desenho e à gravura na universidade. A sua produção artística desenvolve-se sobretudo na pintura, no desenho e na gravura, dialogando também com referências do cinema e da literatura. A artista já participou em exposições coletivas e individuais em Portugal, Espanha, Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda.
Além da prática em galeria, Mariana Duarte Santos tem desenvolvido um percurso significativo na arte pública. Desde 2019, realizou mais de cinquenta murais em países como Portugal, Espanha, Luxemburgo e Irlanda. Nos trabalhos urbanos, investiga temas ligados à memória, identidade coletiva e histórias locais, utilizando frequentemente imagens de arquivo como ponto de partida para as composições.
Em Calafrio, a artista reafirma a capacidade da pintura contemporânea de produzir reflexão crítica sobre o presente. A exposição não apenas retrata o medo como condição emocional, mas revela como ele é construído, reproduzido e amplificado socialmente. Ao aproximar cinema, pintura e memória histórica, Mariana Duarte Santos cria uma experiência imersiva que coloca o visitante diante de uma questão inquietante: num mundo saturado de imagens, ainda conseguimos distinguir entre realidade e percepção mediada?
Por Monica Mafra Martins

