A Cadeira – Conto de Luiz Carlos Lacerda (Parte 03)

O episódio anterior finalizou-se com Eulália, que corria à janela para ter a visão que tomava conta cada dia mais da sua fantasia, o rapaz.

Eulália

Eulália passou a sair, a trazer embrulhos misteriosos de lojas do Largo do Machado, onde ia de ônibus mas que nunca tivera a ventura de viajar com seu príncipe encantado. Imaginava roçar seus dedos nos dele, ao receber o troco. Ou de simplesmente, passiva, ser conduzida por ele, caso fosse o motorista.

Motorista/cobrador

Guardava suas compras clandestinas sem abrir, num velho baú deixado no quarto de hóspedes que ocupava.

De volta ao apartamento do Flamengo, cada dia menos festejado quando ia pra lá passar a temporada combinada, um dia pediu à madrinha para sair. Ia ao Largo do Machado.

Perguntada, respondeu segura e feliz “– Vou comprar uma nova peça pro meu enxoval. Enxoval,
perguntou D. Leocádia. Sim! Estou noiva!” A madrinha não deu atenção ao que parecia ser
mais uma fantasia da parente abilolada.

Um belo dia, ao acordar na casa do Cosme Velho, mal lavou o rosto para arrumar a mesa do café, correu à janela. Nada. Nem o moreno dos seus sonhos e nenhum veículo estacionado. Era muito cedo, é verdade. Mas era um dia comum, da semana – desses que nunca se soube bem porque são chamados de úteis. Como se os sábados e domingos fossem inúteis. Terminou a arrumação do quarto, passou o café, deu bom dia para as primas que acordavam, e sempre atenta, verificava pela janela o ponto que continuava deserto e sem ninguém.

Depois de recolher a louça e lavar apressadamente – como não era seu hábito – ao ponto de deixar cair uma xícara de Limoges do serviço que acompanhava a família a vida inteira, postou- se à janela pelo resto do dia. Nada. Nessa noite, não conseguiu dormir. Cochilava de cansaço por alguns minutos, logo sobressaltada com o ronco de um outro ônibus que acelerava para alcançar a ladeira à caminho de Santa Teresa Nada da carruagem com seu príncipe!

Encheu-se de coragem no dia seguinte, arrumou-se como quando saia à passeio e ganhou a rua. O primeiro que encontrou foi um vendedor ambulante de bananas e mamão. E foi ele que lhe deu a triste notícia : por causa das constantes reclamações da vizinhança, o ponto final fora transferido para bem longe dali – com seu itinerário modificado , que terminava quase no Curvelo, em Santa Teresa, onde ela jamais teria coragem de ir.

Eulália nunca mais viu seu noivo. Entristecida, abandonou o que considerava enxoval até encontrar um destino: um brechó beneficente da igreja frequentada por suas primas. E não voltou mais à casa do Cosme Velho. Sem apetite e nenhum motivo para viver, parou de fazer suas flores de papel, os bordados delicados, emagreceu e acabou morrendo discretamente. Como vivera.
Ficou aquela toalha, com buquês de delicadas violetas, bordadas antes de sua paixão, quando a vida escorria calma e os dias pareciam todos iguais. Presenteara a sua madrinha – e era usada sempre que recebesse alguma amiga para lanchar. Foi Eulália que bordou ! Que perfeição, respondiam. E ela se retirava da sala, enrubescida. Não estava acostumada à elogios.

Luiz Eusébio

Luiz Eusébio, num rompante, levantou-se do sommier e caminhou em direção ao quarto principal da casa, agora vazio. Experimentou a chave que estava na fechadura. Jordana havia trancado, como se quisesse avisar que não valeria a pena avançar naquele território sem vida, interditando-o.

Jordana

Ele tomou coragem, destrancou-o e olhou, de fora ainda. Sobre uma velha máquina de costura deixada num canto e que certamente não despertara interesse do português da loja, a toalha de Eulália, dobrada com o cuidado característico e quase maníaco da diarista. Num impulso inexplicável, como quem mergulha num lago profundo sem saber nadar, ele avançou até ela, abraçando-a como se abraça uma pessoa – e chorou. Chorou profundamente.

Chorava pela traição à promessa feita à mãe, chorava pela separação da mobília que testemunhara toda a sua existência, chorava pela sua vida inexpressiva e sem nenhuma motivação que o fizesse acordar diariamente.

Era preciso continuar a viver. Pagar a dívida com o condomínio, fazer uma compra que não se limitasse ao de sempre vindo da padaria, e talvez acrescentar essas novidades anunciadas nos intervalos dos noticiários de TV, e que bastava aquecer no micro-ondas – que também precisava de conserto. E, quem sabe, até comprar um chinelo novo e caminhar de manhã no Aterro que se descortinava diante de seu prédio.

À janela, lembrou-se de um tio, irmão de seu pai, que era da equipe do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, que planejara o empreendimento e convidara o paisagista Roberto Burle Marx, também amigo da mentora de tudo, Lota de Macedo Soares – Secretária de Obras do Governo. Tio Fernando era um entusiasta do Modernismo – contrariando o mundo conservador da família. Fumava cigarros de filtro que mandava comprar nos Estados Unidos, usava calças de linho largas e mocassins sem meias, moderno relógio Cartier no pulso, o modelo que a fábrica francesa homenageara o inventor do relógio de pulso e o avião, o Santos. E era aficionado da escola de Bauhaus, e dos móveis do português Tenreiro, que vivia no Brasil.

Porteiro

Um dia, furioso, tocou a campainha do apartamento espavorido e acompanhado do porteiro – que trazia uma cadeira pesada. Tinha comprado num leilão como peça da Bauhaus e descoberto depois tratar-se de uma fraude. Consultou seu amigo especialista em Art Deco, que estava se ocupando de criar um Instituto no Brasil, que dera o diagnóstico final : não era uma cadeira de estilo. Tio Fernando fora enganado. E não queria mais ver o móvel pela frente. Trouxera para Leocádia, quem sabe, presentear a funcionária da casa. E também para que nenhum amigo que o visitasse ficasse sabendo da história, afinal, vergonhosa.

 

 

Continua… | Próxima publicação dia 16/02/2021. A não perder!

Se chegaste agora neste conto, confira aqui a PARTE 1 e PARTE 2.

 

Elenco:

Luiz Eusébio – Nildo Parente (In memorian)
Jordana – 
Catarina Abdalla
Eulália – 
Marcelia Cartaxo
Motorista ou Cobrador (o noivo de Eulála) – 
Armando Babaioff
Português da mobília – Henrique Pires
Carregador do burro-sem-rabo – 
Tarcísio Vória
Porteiro – 
Mano Melo

Coluna – Luiz Carlos Lacerda
Luiz Carlos Lacerda é Realizador, Roteirista e Produtor brasileiro, com extenso currículo no cinema brasileiro, tendo dirigido séries para TV sobre. Foi professor do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá (RJ), Escola Internacional de Cinema de Cuba, Polo do Pensamento Contemporâneo, Nós do Morro (RJ) e de diversas oficinas em mostras de cinema. É membro do Conselho do Museu Nacional de Belas Artes (2018/2019) e da Associação Brasileira dos Cineastas. Poeta, colaborador de vários suplementos literários e antologias poéticas.