Quatro espectáculos abrem os primeiros dias do Festival de Almada 2021

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Hipólito, História da Violência, Amitié e Aurora Negra são apresentados apenas nos primeiros dias do 38º Festival de Almada 2021

Nesta sexta (2), o 38º Festival de Almada 2021 arranca com quatro espectáculos que são apresentados exclusivamente nos primeiros dias do evento. São duas estréias portuguesas, uma escrita incomoda de Édouard Louis e interpretação de François Chattot que abrem o Festival.

Hipólito no Festival de Almada 2021

Em Hipólito, de Eurípides, a encenação de um clássico que estava por estrear profissionalmente em Portugal, é realizada por Rogério de Carvalho, no Teatro Municipal Joaquim Benite, nos dias 2, 3 e 4 de julho. O espectáculo entra em diálogo com a criação de Fedra, de Racine, que o encenador de Almada dirigiu na Sala Principal do TMJB em 2006: Teresa Gafeira volta a interpretar o papel de Fedra e José Manuel Castanheira e Mariana Sá Nogueira assinam de novo, respectivamente, a cenografia e os figurinos desta criação.

O mal-amado Hipólito, bastardo fruto de uma ligação entre Teseu e uma amazona, acaba por ter por madastra Fedra, que se apaixona pelo enteado, em resultado de um mau-olhado de Afrodite. Perante tamanhos traumas relacionados com as mulheres, Hipólito desenvolve uma misoginia torpe, negando-se com virtuoso orgulho à experiência carnal. «Eurípides tratou este tema por duas vezes. Uma primeira peça fez escândalo. Fedra abandonava-se à sua paixão e declarava-a de viva voz ao enteado, que, horrorizado, cobria o rosto com um véu. Tais audácias são atenuadas na peça que se segue e que, em Abril de 428 a.C., poucos meses após a morte de Péricles, obtém o primeiro prémio [nas Dionísias].» (Marie Delcourt-Curvers).

Eurípides nasceu por volta de 480 a.C. na ilha de Salamina. Um renovador, levou a condição humana e os problemas sociais para o teatro. Das muitas dezenas de peças que lhe são atribuídas chegaram até nós menos de vinte, oito das quais datadas com precisão, entre as quais Hipólito, um texto que celebra a perene modernidade da tragédia clássica e a imutabilidade das paixões humanas.

História da violência no Festival de Almada 2021

Ivica Buljan é um dos criadores cujo percurso o público do Festival acompanha há já vários anos: de Macbeth, de Shakespeare (2014), a Final do amor, de Pascal Rambert (2018), passando por Cais Oeste, de Koltès (para a CTA, em 2014) e Pílades, de Pasolini (2016). Em 2018 o encenador croata lançou-se na adaptação para palco de História da violência, que para si constitui uma “denúncia do racismo, da homofobia e dos mecanismos de dominação ocultos nas sociedades capitalistas”. Patente no Fórum Municipal Romeu Correia, de 2 a 5 de julho.

Na véspera de Natal, na Place de la République, em Paris, Édouard conhece Reda, um descendente de argelinos. Conversam, começam a flirtar e Édouard convida Reda para subir ao seu apartamento, onde passam a noite juntos. Reda fala sobre a sua infância, sobre a vida duríssima do pai, e quando está prestes a ir-se embora, Édouard descobre que o seu smartphone desapareceu. Reda puxa então de uma pistola, ameaça Édouard, e a agressividade leva à extrema violência e até mesmo à violação. O que se segue demonstrará o poder esmagador do preconceito contra a homossexualidade e os imigrantes, e a que ponto a violência está afinal desse lado, do daqueles que não aceitam o desvio à norma – seja o da identidade cultural ou sexual.

A narrativa (Histoire de la violence, 2016) reconstrói com liberdade literária uma noite similarmente traumática experienciada pelo escritor Édouard Louis, num retrato impiedoso das actuais sociedades. Um texto corajoso, por um dos mais jovens e promissores autores franceses dos nossos dias, cujas obras foram já traduzidas e encenadas em vários países.

Amitié no Festival de Almada 2021

Já no Incrível Almadense, nos dias 2, 3, 4, 6 e 7 de julho, caberá a François Chattot interpretar a figura de Eduardo De Filippo em Amitié, que a encenadora francesa Irène Bonnaud construiu a partir da história de amizade e admiração mútuas entre Pier Paolo Pasolini e o comediógrafo e actor napolitano, na busca de “um teatro de actores, sem cerimónias nem lantejoulas, num regresso à arte bruta, imediata e vital da comédia napolitana”. Estreado no Festival d’Avignon de 2019 como espectáculo itinerante, Amitié foi idealizado para salões de festas e espaços ao ar livre, levando o teatro às populações periféricas, na tradição artesanal das trupes itinerantes.

Servindo uma ideia de teatro em que também Eduardo De Filippo (1900-1984) se revia, evocam-se aqui as trupes ambulantes que percorriam Itália de lés a lés. Desconhecida do grande público, a amizade que unia Pasolini e De Filippo era profunda. Esta história celebra-a.

Destinado a um road movie que não se concretizou em razão do assassinato de Pasolini, o texto foi trabalhado sem perder de vista a dinâmica de uma narrativa de estrada, uma viagem durante a qual o herói pasoliniano se cruza com os protagonistas da obra de Filippo. Viagem por épocas e estilos, realizada por três actores formados na grande tradição do teatro artesanal: François Chattot e Martine Schambacher, já conhecidos do público do Festival de Almada, a que se junta agora Jacques Mazeran. Um espectáculo enxuto e cheio de vitalidade, dirigido pela encenadora Irène Bonnaud, conhecida e reconhecida pelas suas abordagens fortemente políticas ao teatro.

Aurora Negra no Festival de Almada 2021

Aurora Negra, de Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema reúne a música, a dança, o vídeo, as artes plásticas, e um conjunto de dramaturgias construídas a partir de materiais hodiernos e ancestrais. São postos em cena rituais de passagem de Angola, Guiné-Bissau e Cabo-verde, que homenageiam as narrativas mitológicas africanas. “Os nossos ancestrais sussurram aos nossos ouvidos, e nós gritamos ao microfone as suas histórias”, dizem as ‘Auroras’, como já é conhecido este trio de criadoras e intérpretes. Na Academia Almadense, de 2 a 5 de julho.

«O canto começa na voz de uma mulher que fala. Fala crioulo. Fala tchokwe. Fala português. Em cena três corpos, três mulheres na condição de estrangeiras onde são faladas essas três línguas. Em cada mulher uma essência, personalidade e trajetória que se cruzam, com a certeza de que nada voltará a ser igual. Nesta Aurora Negra buscamos as raízes mais profundas e originais dessas culturas, celebrando o seu legado e projectando um caminho onde nos afirmamos como protagonistas das nossas histórias.» (Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema)

«Aurora Negra conta, na primeira pessoa do plural, as memórias de mulheres negras no Portugal pós-colonial e por descolonizar. Três actrizes desfolham um arquivo com nomes de vivos e mortos, com línguas e lugares múltiplos, músicas do despontar da nossa juventude, numa celebração da jornada e subjectividade colectiva de uma geração afro-portuguesa contemporânea. O humor é omnipresente, em jeito de sátira, prenhe de ironia e, sobretudo, da alegria de se estar e ser na sua própria pele. “Meu corpo eu te autorizo a ocupar qualquer lugar”. O que Aurora Negra faz e é em si um statement, uma busca pelo rompimento das malhas da invisibilidade e do estereótipo racial nas artes performativas. O espectáculo venceu a segunda edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Há um porvir que amanhece, um Portugal negro que toma a boca de cena.» (Cristina Roldão)